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Ensaios Clínicos

Testes em andamento para novas terapias direcionadas à Síndrome de Angelman

O que são ensaios clínicos

Ensaios clínicos são estudos de pesquisa científica realizados com pessoas para avaliar novos tratamentos, medicamentos ou intervenções. São fundamentais para transformar descobertas de laboratório em terapias aprovadas que podem beneficiar pacientes. Para a Síndrome de Angelman, os ensaios clínicos representam a esperança concreta de tratamentos que possam melhorar significativamente os sintomas da condição.

Fases dos ensaios clínicos

  • Fase 1 (segurança): Avalia a segurança e dosagem do tratamento em um pequeno grupo de participantes. Foco principal em tolerabilidade.
  • Fase 2 (eficácia): Avalia a eficácia e os efeitos colaterais em um grupo maior. Busca identificar a dose ideal e sinais de benefício clínico.
  • Fase 3 (confirmação): Compara o tratamento com o padrão atual (ou placebo) em estudos amplos e multicêntricos. Necessário para aprovação regulatória.
  • Fase 4 (pós-comercialização): Estudos pós-aprovação que monitoram segurança e eficácia a longo prazo na população real.

Ensaios em andamento para Síndrome de Angelman

A Síndrome de Angelman vive um momento histórico na pesquisa terapêutica. Múltiplos ensaios clínicos estão em andamento simultaneamente, cobrindo diferentes abordagens — desde oligonucleotídeos antisense (ASOs) até terapia gênica. Abaixo estão os principais estudos ativos.

Oligonucleotídeos Antisense (ASOs)

Os ASOs são a plataforma mais avançada clinicamente. Essas moléculas sintéticas se ligam ao RNA antisense natural (UBE3A-ATS) que silencia a cópia paterna do gene UBE3A no cérebro, permitindo que ela volte a se expressar. São administrados por via intratecal (injeção na coluna vertebral), com doses de manutenção a cada ~12 semanas.

GTX-102 / Apazunersen (Ultragenyx)

O apazunersen é o ASO mais avançado em desenvolvimento. Dados iniciais de um estudo aberto de Fase 1/2 (NCT04259281) com 74 participantes mostraram melhorias clinicamente significativas em cognição, função motora, comunicação, sono e comportamento. Os primeiros cinco pacientes desenvolveram fraqueza reversível nos membros inferiores nas doses mais altas.

Após alinhamento regulatório, a Ultragenyx avançou para dois programas paralelos de Fase 3:

  • Estudo Aspire (NCT06617429): Estudo multicêntrico, randomizado, duplo-cego, controlado por procedimento simulado (sham). Completou a inscrição de 129 crianças ambulatoriais de 4 a 17 anos com SA por deleção em julho de 2025. O regime de dosagem consiste em uma fase de carregamento (três doses mensais de 8 mg intratecais) seguida de manutenção com dose máxima de 14 mg a cada ~12 semanas. O desfecho primário é a mudança no escore bruto cognitivo do Bayley-4 até o Dia 338. Inclui também o Multidomain Responder Index (MDRI), que avalia melhorias em cognição, comunicação, motricidade e comportamento.
  • Estudo Aurora (NCT07157254): Amplia o acesso a uma população mais diversa. Planeja inscrever ~60 participantes de 1 a <65 anos, incluindo todos os subtipos moleculares (deleção, DUP, defeito de imprinting e mutação UBE3A). Organizado em quatro coortes por idade e genótipo, com fase primária de eficácia de 48 semanas seguida de extensão de longo prazo.

ION582 (Ionis Pharmaceuticals)

O ION582 foi avaliado no estudo aberto de Fase 1/2a HALOS (NCT05127226) com 51 crianças e adultos (2 a 50 anos). Resultados detalhados divulgados em julho de 2024 demonstraram segurança favorável e melhorias dose-dependentes em cognição (escores cognitivos do Bayley-4), comunicação (linguagem expressiva e receptiva) e função motora. Todos os pacientes elegíveis transitaram para a extensão de longo prazo.

Com base nesses resultados, a Ionis iniciou o estudo global de Fase 3:

  • Estudo REVEAL (NCT06914609): Estudo randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, iniciado em junho de 2025. Inscreve duas coortes: crianças de 2 a <18 anos (população primária) e adultos de 18 a 50 anos com SA por deleção ou mutação UBE3A. Participantes são randomizados 1:1:1 para ION582 40 mg, 80 mg ou placebo, administrados a cada 12 semanas por ~52 semanas, seguidos de extensão aberta. O desfecho primário é mudança no escore bruto de comunicação expressiva do Bayley-4 na Semana 52.

Rugonersen (Oak Hill Bio — anteriormente Roche)

O rugonersen foi o terceiro ASO avaliado em estudos clínicos para SA. No estudo TANGELO (NCT04428281) de Fase 1, 61 crianças de 1 a 12 anos foram tratadas, com alguns participantes acompanhados por até quatro anos. O tratamento foi bem tolerado, sem descontinuações. Os participantes mostraram melhorias em quase todos os domínios do Bayley e do VABS em relação à história natural, com 74–93% classificados como pelo menos minimamente melhorados na escala de Impressão Global Clínica.

Reduções na potência delta do EEG correlacionaram-se com maiores ganhos no desenvolvimento, sugerindo o EEG como possível biomarcador preditivo.

Em abril de 2025, a Oak Hill Bio firmou um acordo de licença exclusiva com a Roche para obter os direitos globais do rugonersen, assumindo a continuidade do programa de desenvolvimento. A Oak Hill Bio considera o rugonersen um potencial "melhor da classe" (best-in-class) entre os tratamentos em investigação para SA, com potencial para ser o primeiro tratamento modificador da doença aprovado para a síndrome. Com base nos resultados promissores do estudo TANGELO, a Oak Hill Bio planeja iniciar um estudo pivotal de Fase 3 no início de 2026.

Terapia de substituição gênica

MVX-220 (MavriX Bio) — ASCEND-AS

O MVX-220 é a primeira terapia de substituição gênica para SA a entrar em testes em humanos. Utiliza o vetor viral AAVhu68 para entregar uma cópia funcional do gene UBE3A diretamente nos neurônios por administração intra-cisterna magna (base do crânio).

  • Estudo ASCEND-AS (NCT07181837): Ensaio multicêntrico, aberto, de Fase 1/2. Avalia segurança, tolerabilidade e eficácia preliminar. Elegíveis são indivíduos ambulatoriais com SA confirmada geneticamente por deleção materna, DUP ou defeito de imprinting. Adultos de 18 a 50 anos são inscritos primeiro (Coorte 1), seguidos de crianças de 4 a 8 anos (Coorte 2) após revisão de segurança. Inclui acompanhamento intensivo de 2 anos e monitoramento adicional de 3 anos para avaliar durabilidade da expressão gênica e segurança a longo prazo.

Biomarcador EEG

A ritmicidade delta no EEG é um biomarcador confiável da SA. Estudos demonstram que reduções na potência delta correlacionam-se com ganhos no desenvolvimento. Uma redução de 4 dB corresponde à diferença mínima clinicamente importante nas escalas do Bayley, enquanto reduções de 6 dB excedem esse limiar. Esse biomarcador está sendo utilizado em múltiplos ensaios para avaliar a resposta ao tratamento.

Onde encontrar ensaios clínicos

Para consultar os ensaios clínicos atualmente em andamento para Síndrome de Angelman:

  • ClinicalTrials.gov: Base de dados internacional de ensaios clínicos. Pesquise por "Angelman Syndrome" para resultados atualizados.
  • FAST (Foundation for Angelman Syndrome Therapeutics): Mantém um pipeline atualizado de todas as terapias em desenvolvimento no Roadmap to a C.U.R.E. 2.0.
  • Angelman Brasil: Divulgamos oportunidades de participação em ensaios clínicos abertos para pacientes brasileiros em nosso site e redes sociais.

Participação de brasileiros

Nem todos os ensaios clínicos estão disponíveis para pacientes no Brasil, pois muitos são realizados inicialmente nos Estados Unidos e Europa. No entanto, há possibilidades crescentes:

  • Alguns ensaios incluem centros na América Latina
  • Estudos de história natural podem ser realizados remotamente e são importantes para a elegibilidade futura
  • O Registro Nacional facilita a identificação de pacientes elegíveis quando ensaios se abrem no Brasil

Para saber mais sobre como participar, veja a página Participar de Pesquisas.

Referências

As informações sobre ensaios clínicos nesta página foram atualizadas com base em:

  • Samanta D. Emerging and established therapies for Angelman syndrome. Brain and Development. 2026;48:104527.